Parte 4: Graciete Sotto Mayor Ribeiro, membro do TJRR

No dia 8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher, data em que se celebram conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres ao longo dos anos, sendo adotado pela Organização das Nações Unidas e, consequentemente, por diversos países. Por esse motivo tão especial, a equipe da Escola do Poder Judiciário (Ejurr) resolveu fazer entrevistas semanais durante o mês de março em homenagem a mulheres mais que especiais: formadoras da Ejurr, ou profissionais que de alguma forma já fizeram parte da história da escola. A entrevista de hoje é com a Graciete Sotto Mayor Ribeiro, juíza titular da Vara de Crimes contra Vulneráveis.
 


 


Graciete Sotto Mayor Ribeiro, é natural de Manaus-AM. Resumir sua biografia é um desafio, pois a juíza tem muita história em sua carreira profissional. Ela é Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM; especializada em Direito da Criança e Adolescente pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro; pós-graduanda em Direitos Humanos, pelo Grupo Educacional Verbo Jurídico; e pós-graduanda em Direito Penal e Criminologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Ingressou na magistratura em 1996 e dois anos depois foi promovida a juíza de direito da Comarca de São Luiz do Anauá. Atuou como titular na Vara da Infância e da Juventude (2001-2011), na Vara de Execução Penal (20112016), na 2ª Vara Criminal de Competência Residual (jan/2016-set/2016) e atualmente é titular da Vara de Crimes Contra Vulneráveis.

Participou de inúmeras comissões e coordenações pelo TJRR e atualmente é Presidente do Grupo de Trabalho para monitoramento e incentivo à participação institucional feminina no âmbito do Tribunal de Justiça de Roraima (TJRR); residente do Comitê Estadual Judicial de Enfrentamento à Exploração do Trabalho em Condição Análoga à de Escravo e ao Tráfico de Pessoas, representando o Tribunal de Justiça do Estado de Roraima; e Presidente da Comissão do Programa Justiça Comunitária. É também formadora da Ejurr e contribui partilhando a sua experiência com seus colegas magistrados, servidores e colaboradores.

Além de exercer todas estas atividades, acumula com a mais importante na sua vida: a maternidade!


Confira a entrevista!

 

Dra. Graciete, é um prazer enorme conversar com a senhora. Como a senhora começou a trabalhar na área do Direito? E na magistratura?

Comecei a trabalhar como secretária em um escritório jurídico, assim escolhi fazer faculdade de direito. Quanto a Magistratura após a formatura, comecei a preparação para concursos. Trabalhei um ano na CGJ/TJRR, com o Des. Lupercino Nogueira – brilhante Magistrado, e o concurso da Magistratura do TJRR foi o primeiro que fiz, após completar os dois anos de formada, assumindo em novembro de 1996, segundo concurso do nosso Tribunal.


O dia 8 de março foi definido, pela Organização das Nações Unidas (ONU), como o Dia Internacional da Mulher. O que torna essa data especial para as mulheres, na sua opinião?

A data celebra as muitas conquistas femininas ao longo dos últimos séculos, mas também serve como um alerta sobre os graves problemas de gênero que persistem em todo o mundo. Trata-se de uma política afirmativa. No Brasil, passamos de uma sociedade patriarcal para uma que reconhece a igualdade de direitos entre homens e mulheres, nos termos do art. 5º, caput, da CF/88, mas, infelizmente, alguns direitos são garantidos, porém não são efetivados. Por isso a data deve trazer reflexões à sociedade sobre a importância de que as mulheres sejam, de fato, protagonistas de suas vidas.


O quão balanceado a senhora considera o seu ambiente de trabalho atual em relação a homens vs mulheres? Como foi isso na sua carreira?

Considerando que no TJRR nós mulheres ocupamos quase 50% dos cargos, sendo que 40 % exercem cargos de confiança, podemos dizer que o ambiente é relativamente balanceado, entretanto, não gosto do termo “homens vs mulheres” prefiro “homens e mulheres”. Os homens devem ser nossos parceiros e aliados no reconhecimento e garantia dos nossos direitos. Como mãe de um menino, devo ter a responsabilidade de criá-lo para uma sociedade mais justa e humana. Quanto à Magistratura Roraimense, verifico que a cada concurso aumenta o número de Magistradas, refletindo uma nova diretriz na realidade social.


E a senhora sentiu algum desafio na carreira específico por ser mulher?

No início da carreira, ao assumir a Comarca de São Luiz do Anauá, tive algumas situações pontuais, por ser a única autoridade mulher nos quatro municípios da jurisdição da Comarca (São Luiz, São João do Baliza, Caroebe e Rorainópolis). Entretanto, com o trabalho e a presença permanente na comunidade, tudo se resolveu nos seis primeiros meses.


Tem alguém que lhe inspira nessa trajetória?

Tenho várias mulheres inspiradoras: minha mãe, que diante de todas as dificuldades criou e educou 8 filhos, que “bateu pé” para registrar o seu sobrenome nos filhos (Sotto Mayor), pois na família do meu pai a tradição era só o sobrenome do marido (Ribeiro), afinal quem carrega os filhos por nove meses é a mulher, estória contada e recontada por ela diversas vezes. Cito ainda, Bertha Lutz, conhecida como a maior líder na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras. Uma mulher à frente de seu tempo, criou e participou de movimentos como a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, representante do Brasil na Liga das Mulheres Eleitoras e uma das responsáveis por encabeçar o movimento pelo voto feminino no Brasil e pela vitória, em 1932. “Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é negar justiça à metade da população” (Bertha Lutz).


A senhora tem conselhos específicos para mulheres que estão começando agora nesta área do Direito e que almejam ingressar na magistratura?

A magistratura é uma profissão maravilhosa que exige vocação e dedicação. O melhor conselho que posso dar é: escolha a profissão por você, por você gostar e que seja a sua realização pessoal. Não escolha por indicação de terceiros, por questões financeiras ou status social, só assim será uma profissional exemplar e acima de tudo uma pessoa FELIZ.


E para o mercado de trabalho de forma geral, que conselho daria para que as mulheres possam contribuir para um mercado com oportunidades iguais?

Ouso usar uma frase de Cora Coralina: “Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores”. Temos que escalar os obstáculos que a vida nos impõe, removendo ou contornando as dificuldades que surgem no caminho, mas sem nunca perder a essência de SER MULHER. Temos que educar nossos filhos (meninas e meninos) para um mundo de oportunidades iguais, sem distinção de gênero, cor ou etnia. A conscientização e mudança de cultura não são alteradas de um dia para o outro As grandes ações transformadoras no mercado de trabalho dependem das novas gerações compromissadas e cientes do poder social e transformador que possuem.