Parte 1: Vera Sábio, Técnica Judiciária do TJRR


No dia 8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher, data em que se celebram conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres ao longo dos anos, sendo adotado pela Organização das Nações Unidas e, consequentemente, por diversos países. Por esse motivo tão especial, a equipe da Escola do Poder Judiciário (Ejurr) resolveu fazer entrevistas semanais durante o mês de março em homenagem a mulheres mais que especiais: formadoras da Ejurr ou profissionais que de alguma forma já fizeram parte da história da escola. A entrevista de hoje é com Vera Lúcia Sábio, atualmente lotada na Subsecretaria de Infraestrutura, Acessibilidade e Inclusão (Subiai).
 


Ela nasceu em Campina da Lagoa, no interior do Paraná, com um problema genético chamado retinose pigmentar. Cedo perdeu a visão, mas apesar das dificuldades enfrentadas, é exemplo de mulher forte e determinada. Vera é esposa, mãe biológica, mãe adotiva, psicóloga, escritora e servidora efetiva do Tribunal de Justiça do Estado de Roraima. É autora do livro “Enxergando o sucesso com as mãos”, lançado em 2017, pela editora Multifoco. Participou de diversos movimentos nacionais da Organização Nacional do Cegos do Brasil (ONCB) e da Igreja Católica, sua religião. Vive em Roraima desde 1995, onde aprendeu braille, fez faculdade, formou família. Atualmente cuida de sua carreira no Judiciário roraimense, é presidente da Associação dos Deficientes Visuais de Roraima (Advir) e faz parte do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Coede-RR).


Confira a entrevista!


Vera, é um prazer enorme conversar com você. Como você começou a trabalhar no serviço público?

Comecei aqui no TJ mesmo. Eu fiz concurso em 1996 para o TJ, a Assembleia Legislativa e a Caixa Econômica. Na Assembleia foi onde saiu o resultado primeiro e passei. Estava correndo atrás para entrar. Colocaram um monte de obstáculo e demoraram de junho a setembro, quando soube que passei no TJ. Fiz concorrendo com pessoas com deficiência, onde fiquei em primeiro lugar, já que tinham 4 vagas, mas entre todos fiquei em décimo primeiro lugar, ou seja, entraria de todos os jeitos. Não tive problemas, me chamaram logo no começo de dezembro, o que me deixou muito feliz, fazendo abandonar a Assembleia, onde nunca me chamaram, e na Caixa (Caixa Econômica), fiquei na fila de espera. No começo não sabiam bem onde me encaixar e me colocaram por nove meses no Cartório Distribuidor, mas depois fui para telefonista onde fiquei quase dez anos, só saindo porque tinha acabado o sistema de PABX. Trabalhei também na Informática, no Almoxarifado, na Ejurr, na Comunicação e atualmente na Subiai (Subsecretaria de Infraestrutura, Acessibilidade e Inclusão).


O dia 8 de março foi definido, pela Organização das Nações Unidas (ONU), como o Dia Internacional da Mulher. O que torna essa data especial para as mulheres, na sua opinião?

Acredito que o direito adquirido por elas. Afinal, antes as mulheres eram vistas mais como escravas dos homens, totalmente dependentes deles e sem direito algum. Agora nós estudamos, trabalhamos e somos independentes. Se casamos é por amor e não por dependência. Antes as mulheres queriam se livrar dos pais e casavam. Tanto que acredito que os casamentos sólidos são realmente recheados de amor. Ninguém mais precisa ficar casado por outro motivo. Pelo menos não deveria, embora o processo seja lento e ainda tenha muitas mulheres que ainda não adquiriram esta liberdade tão sonhada. Comemorar esta data para mim é comemorar a liberdade, o amor, as conquistas. Sou, além de mulher, mãe, escritora, servidora pública e mesmo sendo cega tenho conquistas ímpares para comemorar.


O quão balanceado você considera o seu ambiente de trabalho atual em relação a homens vs mulheres? Como foi isso na sua carreira?

Nunca tive problemas com homens no trabalho. Pelo contrário, quando trabalhei na Informática tive mais amigos homens, os quais foram sempre gentis comigo. Meu período maior foi na telefonia sozinha, então, no trabalho há pouco para falar a respeito. Acho que há mais mulheres no trabalho, como há mais em quase todos os ambientes, perdendo somente para a cadeia. O convívio entre ambos sexos pode ser bem respeitoso, se a mulher souber exatamente o seu papel. Acho estranho quando feministas falam sobre o direito de ser mulher, no entanto parecem falando como homens, agindo como homens. Nada contra e nada a favor da homossexualidade, no entanto é melhor falar sobre direito de ser mulher agindo e querendo realmente ser mulher. O impacto é maior, minha opinião.


E você sentiu algum desafio na carreira específico por ser mulher?

Senti muitos desafios, ou sofri muitos desafios sendo cega. Cega é a palavra não pejorativa, mas real e certa tratando de cegueira que é o meu caso. Deficiente visual é todo aquele que precisa de algum recurso, como um óculos para ver melhor. Bom, sendo cega os desafios são muitos, deste o próprio tratamento por parte dos colegas acostumados a olhar nos olhos, fazerem gestos como um sorriso, um tchau. E eu, bom, não vejo e não respondo a algo mudo que nem sei se é comigo, o que para muitos me torna grossa, o que não é verdade. Se tivessem empatia entenderiam que simplesmente não vi para corresponder ao aceno, por exemplo. Por ser mulher, levei sempre na brincadeira. Uma vez, na Informática, começaram a gritar e correr atrás de um rato. Eu gritei também e subi na cadeira. Logo um colega perguntou: “Ué, e você viu o rato?” Respondi: “Não, né? Mas tenho medo, sou mulher (risos). A vida se torna mais leve quando somos leves em nossas decisões e não tão cheios de competitividades inúteis. Tento ser assim, embora tenha minhas TPMs, atitudes de mulher.


Numa época onde a inclusão e a igualdade são amplamente reivindicados, como é ser mulher com deficiência no mercado de trabalho?

Talvez esta seja a pergunta mais séria para se responder. Tenho alguns agravantes, tenho deficiência, sou mulher, sou esposa, sou mãe biológica e sou mãe adotiva. A luta é grande, mas o importante é continuarmos lutando e definirmos para cada momento nosso melhor papel. Nem tudo que fazem a mim, é porque não enxergo. Na verdade as pessoas têm tantas coisas a pensarem que nem lembram desta minha particularidade, e talvez nem é porque sou mulher também. O mundo tende a ser cruel e não acredito que as coisas piorem pelo que somos. Simplesmente melhoram e pioram às vezes. Olha agora este momento do vírus, que mostra muito esta igualdade, já que ele não escolhe ninguém por características ou condição alguma. Não dá para ficar pensando e somatizando problemas, achando que tudo é conosco. Acabou caiando de estarmos naquele lugar e naquele momento que apareceu alguém mal humorado, por exemplo. Mas tudo na vida são presentes que recebemos. Se não gostamos, devolvemos e pronto. Quem nos deu que fique com o que queria nos derramar. Agora isto não é fácil e, claro, teve várias vezes que sofri, pois aconteceu comigo. Mas tudo serve para um amadurecimento. O que não podemos é ficar sempre repetindo erros, assim a gente não cresce. Creio demais que todos estamos nesta vida para crescer e nos aperfeiçoar, bora (sic) enfrente, já que ninguém é insubstituível. Outro desafio bem importante a ser citado é a falta de alguém que me ensine a mexer no SEI (programa SEI, usado pelo TJRR), por exemplo, e deixar realmente acessível a parte digital do TJ. Isto ajudaria muito meu desenvolvimento e autonomia no trabalho.


Tem alguém que lhe inspira nessa trajetória?

Há muitas pessoas cegas bem desenvolvidas no seu trabalho, como na vida pessoal. Aqui em Roraima mesmo quem me ajudou a aprender um pouco de informática foi um cego e tetraplégico. Ele me inspira demais! Se ele pode, acho que sou mole quando não posso. Se ele não reclama, tenho vergonha quando reclamo. Enfim, como ele há muitas pessoas que realmente ultrapassam seus limites e gosto muito quando ultrapasso os meus. Isto aconteceu muito na cozinha durante esta quarentena. Estou cada vez melhor cozinheira e isto me dá um grande orgulho. Cuidar da minha filha sozinha, ter conseguido adotar uma criança com deficiência física _ ela tinha, pois agora já retirou oito dedos a mais, ou seja, tinha muitos dedos e estamos neste processo. Ela também não sabia falar e agora fala quase tudo _ muita inspiração me dá esta criança tão vitoriosa e tão guerreira em seus cinco anos de idade! Ou seja, temos sempre filhos, amigos, pessoas guerreiras e batalhadoras para nos inspirar. É só querer olhar para os lados.


Você tem conselhos específicos para mulheres que almejam ingressar no serviço público?

Bom, dizem que se conselho fosse bom a gente vendia, mas posso dar minhas dicas. Estude, estude e estude! Graças a Deus o espaço das mulheres foi adquirido e está cada vez mais respeitado. Se você passar sendo mulher ou não, você entra e pronto. Faça como eu, queira entrar e depois lá dentro terão que te encaixar porque você entrou. Tudo é merecimento: se passar, entra. Nem sou a favor de cotas seja para o que for, afinal estas cotas mostram que não há oportunidade igual para o aprendizado de todos. Se eu preciso de um programa acessível e tenho quem me ensine a manuseá-lo, porque preciso de cotas? Às vezes é mais fácil dar cotas do que proporcionar aprendizagem. E estas cotas nos colocam inferiores, pois não entramos baseado no que sabemos, mas pelas cotas que nos ofereceram. Isto é para aqueles que tem deficiência. O pior ainda é que tem muitas pessoas que somente utilizaram as tais cotas para entrar. Aí mesmo no TJ, na hora de assumir sua deficiência, nem querem, de tão leve e imperceptível que esta é. Olhem, por exemplo, sou a única cega do TJ. Quantos com deficiência visual passaram no concurso? Enfim, só para refletir mesmo. Aproveitar das circunstâncias, tirar proveito de leis ou o que seja, não é questão de ser homem ou mulher, pessoa com deficiência ou sem ela. O que faz o cidadão ser melhor é seu caráter e isto somente suas atitudes demonstram. Por isto repito: estude que uma hora a sorte chega!


E para o mercado de trabalho de forma geral, que conselho daria para que as mulheres possam contribuir para um mercado com oportunidades iguais?

Para quem quer trabalhar em outro serviço a situação é a mesma. Infelizmente para as pessoas com deficiência a situação é um pouco pior, já que a lei de cotas garante as deficiências leves, como enxergar só de um olho, ouvir de um ouvido, etc. Quando a empresa é particular e precisam colocar pessoas com deficiência para cumprir a lei, querem sempre colocar as deficiências mais leves possíveis. Olhem que não tem cegos trabalhando em nenhuma grande empresa particular deste Estado. Os que trabalham são os donos do negócio ou parentes do dono. Provando que este preconceito ainda existe e é bem forte, deixando que as pessoas com deficiências graves acabem recebendo do Governo o BPC, que é o Beneficio de Prestação Continuada, e com isto fiquem em casa. Muito triste esta situação, afinal, não crescem, não aprendem e não se tornam livres. Um erro muito grande é que quem recebe o benefício não pode ter carteira assinada, dificultando mais ainda sua inclusão, pois não trocam um salário certo para não fazerem nada, por muitas vezes um salário incerto para fazerem várias coisas, inclusive terem que pegar ônibus, andarem nas calçadas cheias de obstáculos e correrem muitos riscos que um cego corre andando sozinho, para trabalhar. Se pudessem receber o benefício e trabalharem de carteira assinada, quem sabe suas vidas seriam outra? Grande sonho meu, que luto por esta causa há muitos anos.